Trabalhavam
na mesma empresa, porém, em departamentos diferentes.
Ele, um cara reservado, talvez tímido, meio misterioso. Ela,
uma garota de personalidade forte misturada com certa doçura, chamava atenção
de quem estivesse por perto devido ao seu porte e beleza, gostava de conversar,
mas não falava demais. Ambos de fácil trato.
Ao se conhecerem sentiram-se atraídos, porém, uma atração
não física, mais próxima da afinidade. Ela sentia-se atraída pelo jeito
misterioso dele, havia algo naquele rapaz que a fazia acreditar que se tratava
de um cara interessante, diferente, que valia a pena conhecer melhor. Já ele,
atraiu-se pela beleza dela, pelo corpo bem feito, o sorriso largo e o olho
inquisidor. Ao cruzarem-se pelos corredores da empresa, cumprimentavam-se
educadamente, porém, não prolongavam conversa, apenas se olhavam, mediam-se
curiosos sem muito transparecer.
Ficaram nisto por alguns meses, relacionavam-se
profissionalmente apenas. Até que, numa manhã comum, uma brincadeira furtiva,
inocente até, serviu para quebrar o gelo entre os dois, aproximando-os e
fazendo com que ultrapassassem a barreira do “profissional”. Nessa mesma manhã ele
conseguiu o número do celular dela. Desde então, iniciaram uma rotina de troca
de mensagens sobre os mais variados assuntos, a maioria deles sem muitas
intenções, porém, algumas em tom de brincadeira mas totalmente claras quanto ao
interesse de ambos.
As mensagens trocadas ganharam cada vez mais aquele tom
íntimo, próximo do flerte. Divertiam-se com isso. Aproveitaram este clima para
se conhecerem melhor. Decidiram marcar um barzinho, numa tarde de domingo. Ela
sugeriu um lugar público, afinal, quem poderia garantir que o misterioso rapaz não
se tratava de um maníaco, maluco ou coisa similar. Ele, não aprovou a ideia de
início, mas percebeu que não valia a pena ir contra ela, não de imediato.
Ela chegou primeiro, decidiu não espera-lo e tratou logo de
pedir um chope. Tentou justificar-se dizendo que tinha sede, porém, o mais
provável é que estivesse tentando aliviar o nervosismo do primeiro encontro.
Ele, mesmo chegando depois dela, não se atrasou. Parecia nervoso, como se já
tivesse esquecido todas as frases de efeito que havia treinado trancado no
quarto e com o máximo silêncio para que não o ouvissem. Dividiram um par de
chopes.
Ela usava uma calça cargo e um decote discreto mas deixando claro
que se vestiu para um encontro. Ele estava apenas de jeans e camiseta, mas
usava sua melhor cueca. Não esperava nada com isso, é claro, muito menos que o “cardápio”
da noite roubaria seu coração.
Iniciaram conversa como qualquer casal que acaba de se
conhecer: abusando das perguntinhas clichês. Por sorte, os clichês passaram
rápido. Eles não eram convencionais. Muito menos seus clichês.
A noite foi repleta de revelações, muito mais por parte dela
que dominou toda a conversa. Ambos revelaram-se totalmente diferentes do que
imaginavam um do outro. Terminaram a noite com um beijo. E só.
Descobriram-se perfeitos um para o outro. Ela, religiosa e
apolítica. Ele,simpatizante pelo socialismo. Ela, extremamente
comunicativa e bem-humorada. Ele, reservado, neutro, carrega um certo ar blasé, existencial. Ela, teimosa, tem
opiniões fortes, racional e otimista. Ele, um idealista. Ela, se definiu como
uma romântica prática. Ele, se mostrou emotivo e detalhista. Ambos adoram literatura;
músicas “cafoninhas”; barzinhos; comida japonesa; fãs dos Beatles; mensagens
SMS; cinema ou filmes regados a balas azedinhas e chocolate amargo. Mas, o
principal, ambos divertem-se juntos.